sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Gravidez

Poucas pessoas na época sabiam que eu tinha engravidado. E eu carregava a culpa sozinha.

Entrei em negação com a possibilidade, levei 3 meses pra aceitar, procurei todos os caminhos que eu tinha pra tomar. E mesmo nao estando nessa sozinha, eu me sentia solitária. 

Passava dias e dias pensando e sentindo as mudanças no meu corpo. Me culpava todos os dias por tudo aquilo e pela decepção pros meus pais (e pra mim)

Como um namoro podia ser assim, tão pesado?

Eu sentia que nunca mais encontraria alguém ou mereceria alguém. Eu chorei muito, e em silêncio, porque eu sentia que não merecia compartilhar da minha tristeza com ninguém. Sempre me mantive com a máscara, fingindo que estava bem, mas minha cabeça era o próprio caos.

A única pessoa que eu desabafava geral era minha amiga. Ela me ouvia, me protegia do meu, até então, namorado. Ela que me acompanhou no banheiro pra fazer o teste e leu o resultado do outro lado da cabine. Quando deu positivo meu coração disparou. Sentia que meu mundo tinha acabado ali, que eu joguei tudo fora e ainda não tinha alguém que fosse meu suporte. 

Do meu "namorado" eu ouvia: vc não me entende, como alguém vai querer namorar comigo se eu já tiver um filho? Vai pegar mal pra mim. Você estragou minha vida. Ou ouvia: se conforma, loucura não tem cura (em momentos que eu quase descobria todas as traições). Ou ouvia: você fez isso pra me segurar nessa relação, você é doida. Ouvia também que eu ia matar o filho dele, que eu tinha que ficar em casa e abandonar tudo.

Eu carreguei muito peso, muita culpa, muita dor no meu coração. Eu vivia como se fosse um pesadelo, que eu nunca acordava. Conversava muito com Deus e comigo mesma pra tentar entender o que estava acontecendo e porque estava acontecendo. Peguei aversão ao sexo, sentia que ele era ruim e que meu namorado nunca se importava comigo e o que eu sentia ali.

Depois de um tempo, eu sentia que minha filha sentia tudo isso de ruim também, então fiz o máximo de esforço pra que não afetasse ela, que ela não tinha nada a ver com a burrice dos outros. Era uma alma inocente que merecia o melhor. Então eu colocava a mão na barriga, eu sentia ela mexendo dentro de mim, eu conversava com ela, eu colocava a nyna no meu colo que sentia tudo e eu colocava música pra ela ouvir.

Todo dia eu conversava com ela e pedia desculpa por ter sido tão ruim no momento de negação. Quando eu senti que a gente fez as pazes, eu tentava não sofrer pelo fracasso de namoro.

Eu tive muito apoio de quem soube na época, mas o vazio continuava em mim.

Os dias seguiam, eu ia pra faculdade com ele, voltava com ele, ficava em casa sozinha e refletia muito.

Um dia eu acordei e me senti de volta ao pesadelo. Meu pijama cheio de sangue, um mal estar sem fim e uma dor insuportável como se alguém estivesse rasgando minhas costas. Eu acordei com medo, chorando, com um aperto no coração e em negação de novo pelo que estava acontecendo.

Fui pro hospital, resultado "estava com dilatação", ou seja, quase com aborto espontâneo. Fui tomada pelo medo. Me internaram, passei 1 semana no hospital, vendo alguém só na hora da visita e com poucas pessoas sabendo da situação. Sempre pedindo e cobrando que ele viesse até mim, que estivesse do meu lado, mas ele nunca veio. Hoje entendo que se a pessoa quer, ela estará do seu lado, se ela não quer, qualquer esforço será mínimo. 

Nessa fase eu estava com 3 meses +-, tomando remédio controlado que me dava tremedeira nas mãos e uma arritmia forte, sangrando muito, com dores e tentando matar minha vontade de suco de goiaba.

Era um desejo incontrolável pelo suco, eu chorava e ficava esperando a hora do almoço ou meu pai trazer uma nova caixa na hora de visita. Aquele era o único momento de alívio e prazer que eu tinha na vida. Ainda carregava a decepção que causei e o medo nos ombros.

Finalmente tive alta, mas voltei no dia seguinte, sangrando e com muita dor. Onde já se viu uma grávida menstruando? Eu me sentia fraca mas seguia lutando.

Mais uma semana internada. Agora em quarto compartilhado. A Janaína também estava grávida, estava com diabetes gestacional e tinha um marido que trabalhava com meu pai. Ela cuidou de mim e eu sou grata a ela. Ela conversava, ela me ajudava a levantar e ir no wc, ela chamava a enfermeira quando eu estava mal.

Agora nas visitas mais pessoas da família tinha ouvido o ocorrido e vinham me visitar. Não lembro com certeza, mas o Leandro também deve ter ido. Ele que me acompanhou nessa trajetória e também me protegia de quem me machucava. As visitas vinham, mas não quem eu queria.

Tive 3 momentos que fixaram na minha memória. 

1 era o Renan indo me visitar, com sua companheira de trabalho (e atual esposa), me contando que estava gostando dela e levando as temporadas de the big bang theory pra eu passar os dias menos entediada.

Outro foi a Aline, depois de 2 anos sem nos falarmos, sem motivo nenhum, ela me visitou, e deu um banho em mim, enquanto eu estava sentada na cadeira agonizando de dor. No dia ela me trouxe um ursinho rosa, com a frase "it's a girl", e no mesmo dia, eu tinha descoberto que era uma menina.

Outro foi a Paty, que fez uma prova no meu nome e garantiu que eu não tivesse que pagar a reprova. Mas como ela conseguiu? Veio 2 folhas de prova grudadas, exatamente pra ela. Um milagre. Resultado da prova: eu tirei 9.5 e ela tirou 8.

Bom, voltando...

Cada vez que eu pedia pra ele me ver, ele dizia que se sentia mal em hospital, que não queria me ver daquele jeito. Todo aquele papinho de um ser lixo.

Os dias se passaram e as dores aumentaram... como eu perdia sangue!

Minha mãe vinha todos os dias "escondida" pra me ver fora da hora da visita e voltava com o coração apertado. E eu ficava ali, com o coração mais apertado ainda.

Em uma noite tive uma dor horrível, mas andei curvada pelo corredor do hospital atrás de papel higiênico. Levei e deitei. Sentia meu corpo cada vez mais fraco, e muito frio. Pensei "é febre. Não deve ser bom", de manhã avisei a enfermeira, que coletou sangue mais um dia seguido.

Eu fiz o primeiro ultrassom pra ver ela se mexendo e ver o sexo, eu saí sorrindo e querendo contar pra Deus e o mundo que seria uma menina, minha Maria Eduarda. Aliás, eu nunca falei pra ninguém além dele, qual era o nome que eu estava pensando.

E aí, veio uma nova notícia: ele estava no hospital, queria saber se podia subir pra me ver. Mas por que ele veio? Porque a vó estava internada, então ele aproveitou a deixa.

Liberei a entrada, veio ele e a mãe, o diabo em pessoa. Lá ela ficava falando que eu não tinha como cuidar, que ela ia levar pra casa dela, que eu não tinha dinheiro pra sustentar, que era pra eu cuidar muito bem da netinha dela até lá. E eu? Me contorcendo de dor, chorando e tentando comer. Pedi pra eles sairem de lá e me deixarem em paz. Foi ela sair de lá, minha amiga de quarto começou a sentir dores e eu sentia que ia morrer.

Resultado do exame: infecção altíssima, imunidade caiu da noite pro dia. Agora era questão de vida ou morte. Salvar as duas não seria possível e meu corpo não aguentava mais. Recebi a notícia da médica, acho que minha mãe estava junto e meu olhar pra ela era de desespero. Choramos juntas

Imagina só, levei uns meses pra aceitar, vivia em negação, e quando aceitei, tinha que aceitar mais uma coisa: que ela iria embora.

Eu chorei muito nesse dia, chorava de dor e chorava de raiva. Eu não entendia o porquê, eu clamava por um milagre e eu entrei em negação de novo. O que seria de mim agora?

Depois desse combo de notícias em um só dia, eu estava tentando segurar a criança dentro de mim com todas as forças possíveis.

Veio uma vontade de ir no wc, chamei enfermeiras, que me ajudaram a chegar até o lugar, mas enquanto eu estava ali sentada, elas comentaram entre elas

"Mas não é perigoso ela ir no wc?"

"Ela nem podia estar ali, vai que cai no vaso"

E aí eu tive mais um choque. O que ia cair? O que era perigoso?

E eu descobri. A médica me deu remédios pra abortar. Tentei tirar a agulha, mas me seguraram e eu continuei com as dores, que vinham cada vez mais rápido.

Nessas semanas internadas, eu conheci uma enfermeira maravilhosa que cuidava de mim com todo o zelo: Faby Mara.

Foi ela que falava pra eu fazer força, e segurou minha mão, dizendo que sabia o que eu estava sentindo, que ela tinha perdido um também. E ela olhava nos meus olhos enquanto eu olhava pra ela chorando e gritando. Tinha chegado o momento de parir.

Na minha cabeça eu ainda estava em negação, e fazia força pra segurar ela dentro de mim, mas era inevitável.

A Faby olhou pra mim e me disse "Quando for o momento, não olha pra baixo, essa cena vai te marcar pelo resto da vida. Confia em mim, eu estarei aqui com você. 

Fixei o olho nela, e pari. Na hora eu ouvi um barulhinho, que ainda é presente na minha memória. E pensei: ela está viva. Olhei de relance e vi, eram 20cm indefesos.

Eu nunca soube se ela morreu ali ou na barriga. 

Quando tudo aquilo acabou, eu me senti anestesiada, como se tivesse acordado realmente de um pesadelo. Logo em seguida veio a hora da visita, 15h, e tinham várias pessoas pra me ver.  A Faby me deu banho, limpamos tudo e me preparei pra ver eles. Eu queria ver alguém, eu precisava de alguém. A primeira foi a Jack, ela me abraçou e chorou. Também estava grávida, 1 mês de diferença. Eu chorei com ela. Fui consolada. Todas as visitas foram ótimas, mas eu estava com vergonha de mim e das minhas falhas.

No dia seguinte eu fui embora, natal estava chegando e eu só queria ficar no meu canto com a nyna. No mesmo dia eu recebi uma ligação, era a Mariane, ex dele, preocupada, que soube da notícia por meio das fofocas. Ela conversou muito comigo, sentiu muito por tudo aquilo e disse que estava ali por mim. Hoje somos amigas, "irmãs de pintinhas" e carrego ela no meu coração pra sempre.

Veio o novo ano, e ele finalmente veio me ver, lá pro dia 20 de janeiro... Veio sonolento, depois descobri que tinha varado a noite em uma balada. Disse que se arrependeu, que me amava e que iria cuidar de mim. Eu me sentia confusa, mas não queria brigar mais. Ele foi embora. Um mês depois eu fiz a conta no Facebook, e ele apareceu nas sugestões. Ali eu vi tudo, fotos dele em algum lugar, com meninas e na farra. Eu dei umas cultivada nele na época e ele me bloqueou. Sentia muita raiva dele e de como fui fraca.  Só não tinha forças pra sair daquilo. 

As aulas voltaram, e eu voltei a ver ele todos os dias. Dizia que ia cuidar de mim. Me deixava na porta da sala e saia. Um dia eu entrei numa conta fake de um professor deles, e alguém veio me chamar, se eu tinha visto o Fernando. Óbvio que não sabiam que era eu. Respondi que não, e perguntei se ele sim. Descobri que ele me deixava na porta da sala e descia, indo pra kitnet de uma menina da sala dele que ele "achava feia" na época. Todo santo dia ele ia me deixar na sala e descia pra comer outra.

Quando eu descobri, cortei todo e qualquer contato. Pedi pra ele sumir da minha vida e fiz amizade com as senhoras que pegavam trem comigo de manhã. Elas guardavam meu lugar e até me ligavam quando eu atrasava. A que mais me ajudou foi a Amélia.

Um dia, 4h30 esperando o trem, menos de um mês após o distanciamento, eu olho pra outra plataforma. Era ele e a menina da kitnet. Até dormia na casa dele! Aquilo me deixou com mais raiva dele e eu so queria socar a cara dos dois.

Por sorte o curso dele durava menos, então as idas e vindas da faculdade encontrando ele se foram. Um tempo depois ele até veio atrás, querendo voltar. Mas eu tinha entendido que não ia mais acontecer e que eu precisava me respeitar primeiro.

4 meses depois, uma tia dele que mora na França, Danielle, veio em casa nas férias dela e me deu uma caixa de chocolate. Queria saber como eu estava, que só ficou sabendo quando veio pro Brasil e que a mãe dele era louca. Me contou que a ex sogra tinha acionado advogado e tinha toda a papelada pra tirar a guarda de mim assim que nascesse.

Com o tempo eu só consumi raiva por eles.

Em 2019, numa ironia do destino, apareceu uma foto de um amigo em comum (que eu nem sabia que era) com o ex e a noiva. Estavam casando. Ali eu percebi que não tenho mais sentimento nenhum de nada e vejo o livramento que eu tive na minha vida.

Pouco tempo depois, a esposa me adicionou e eu adicionei de volta. Dois dias depois, me bloqueou.

Sempre que eu me vejo em uma má situação, eu me lembro de tudo isso e me afirmo que sou forte e, se passei por tudo isso, eu consigo passar por mais uma coisa, que o pior já foi e que eu mereço ser feliz e ter alguém do meu lado que me ame, me respeite e cuide de mim.

.

.

Em 2020, eu resolvi me dar uma chance de tentar de novo. Comprei e guardei um body com a carinha do Mickey. Me sinto pronta pra viver uma nova fase.

Nenhum comentário:

Postar um comentário