Passei os primeiros 4 anos de escola sem uma amiga que eu sentisse no coração que era ela. Tive algumas amigas e colegas, mas nunca uma melhor amiga.
Cheguei em outra escola, me sentia sozinha, até fazia amizades com algumas meninas, mas nenhuma se mantinha por muito tempo. Tive uma que mais se destacou entre elas, que temos uma amizade firme, mas que nos distanciando quando ela se mudou de cidade. Na época eu fiquei frustrada, como ela podia me abandonar depois de eu ter finalmente achado uma melhorzinha?
Como iam ser meus últimos 3 anos na escola?
Eu sempre fui rodeada de amigos, meninos, eu sabia selecionar o que só queria papo furado com os que realmente se preocupavam e mantinham uma amizade. São eles que eu converso até hoje e sou muito grata.
Eles me acompanhavam nas coisas, conversavam, ouviam e davam conselhos, e cuidavam de mim, mantendo distante pessoas que só queriam encher o saco.
Minha vó sempre se abismava com o tanto de meninos no meu aniversário, e uma ou outra menina.
Eu não me sentia acolhida e nem participava dos grupos das meninas, e por muito tempo, eu me sentia mal perto delas, e me sentia sozinha.
Pra mim, que tive uma infância solitária, que mal tinha primos e brincava sozinha em casa, sempre foi muito difícil continuar a trajetória sozinha. Me apoiando em alguns que passavam temporariamente.
Depois de um tempo eu entendi que quanto mais velha eu ficasse, menos amigos e colegas eu teria. Sobraram aqueles que eu posso contar e é mais valioso do que a quantidade.
Quando eu decidi ir pra SP fazer faculdade, eu sentia que teria um recomeço e talvez fizesse parte dos grupos mais populares, mas quando eu cheguei lá, me senti um peixe fora da água. A história se repetiria.
A única pessoa que eu conhecia era uma menina que morava na mesma cidade que eu, que incrivelmente era um parente de alguns graus, mas que era rica e nunca fez questão de me ter por perto.
Mas no meu primeiro dia de aula, eu, ansiosa, vi uma menina na porta, encostada esperando começar a aula, enquanto os grupinhos se formavam. Ela tinha no braço e no rosto as iniciais do nosso curso RTV. E foi a partir disso que eu vi que ela era da minha sala. Agora so me faltava coragem de chegar até ela.
Meu ex namorado me incentivou a ir falar com ela e eu fui. Acho que foi a única coisa boa que ele me fez na vida.
Começamos a conversar, identificar nomes e de onde vinha. Ela parecia mais madura e eu me sentia uma criança no meio daquele monte de gente rica e "independente". Eu era a mais nova da sala mais uma vez.
Sentamos juntas, eu sempre observei o estilo dela, as unhas e os gostos parecidos, e com o passar das semanas, parecia que nossa amizade tinha anos de existência. Era uma conexão sem igual.
Eu adorava a letra dela, as músicas que ela gostava e eu me identificava, as mochilas, as novidades, o sotaque do interior dela, a forma de contar e lidar com as coisas.
Em 4 anos de faculdade, eu tive uma amizade que valeu por toda a fase de escola.
A gente nunca brigou. E eu acho isso impressionante. Mesmo que a gente pudesse ter divergências, jamais ficava sem conversar ou se transformava em brigas.
E os conselhos dela, eu sempre amei e me identifiquei pela forma de pensar. Se tem alguém que me conhece muito bem é ela.
Eu a chamava de consciência 3D. Porque era isso que ela era. Uma versão física da minha mente.
Ela nunca gostou do meu ex, e se ela tivesse vindo um pouquinho, talvez eu não tivesse passado por tantas coisas ruins. Mas ela esteve por mim nesses momentos pesados e me deu todo o apoio e amor que eu precisava.
Foi ela que leu o resultado do teste de gravidez, ela que deu um esporro nele, que me esperava na porta do banheiro e ela que me protegia sem fim dele e da maldade que ele tinha. Nunca me esquecerei do dia que ela e mais uma amiga fizeram uma prova final pra mim, enquanto eu estava internada por 2 semanas com possibilidade de aborto, e ainda fiquei com uma nota maior que a delas. Aquele dia foi Deus e elas como anjos na minha vida.
Entre as coisas boas que a gente passou na faculdade, lembro que a gente levava coisinhas pra comer no intervalo, dividiamos e comíamos na sala de aula, muitas vezes sozinhas.
Lembro também que foi com ela que entendi que tudo bem se eu quisesse pintar o cabelo de azul, e que foi ela que me deu um pouco de tinta pra testar em casa.
Lembro que ela que me ensinou que pintar unha podia ser divertido e sempre trazia novidades que tinha em Jundiaí. Nos 4 anos de aula, ela que pintava minha unha no intervalo.
Foi num desses dias também que derrubados o vidro de esmalte cheio e a marca ficou lá por anos.
Eu adorava as cores que surgiam, pintar colorido, neon, com adesivo, craquelado e tudo mais que surgia na época.
Foi com ela que eu conheci o Just Dance, uma nova experiência na minha vida e que adorei. Toda vez que jogamos, tem uma dancinha desafio que precisamos fazer. Mais uma tradição nossa.
A minha única tristeza era quando ela perdia a hora da van ou não podia vir. Me sentia solitária de novo, esperando pelo dia seguinte.
Os grupos de trabalho sempre mudavam, mas a base éramos nós duas.
Foi com a amizade dela que eu dormi fora na casa de uma amiga pra fazer trabalho (TCC). Peguei 2 ônibus e fui pra outra cidade. Emoção e medo a mil, mas super ansiosa por esse momento. Os pais e os irmãos são tão maravilhosos quanto elas e eu guardo todos eles no meu coração até o fim da vida.
Hoje eu chamo eles de irmãos, e ela carinhosamente de sis e sinto que também fui acolhida por todos eles. Assim como meus pais os acolheram.
Sinto que a vida deu um jeitinho de conectar a gente pela faculdade, que não seguimos carreira fielmente depois, mas que era a única maneira de 2 pessoas de moravam nos extremos opostos da linha da CPTM se encontrarem.
Eu sempre ia pra lá de ônibus nos aniversários dela e meus pais iam no dia pra me buscar ou eu voltava durante a semana. Adorava estar ali e comemorar todos os aniversários que pudesse.
Depois de 10 anos de amizade, ela finalmente veio dormir em casa e passar um aniversário integralmente comigo.
Meu próximo objetivo é ir viajar com ela, sozinhas. Curtir a viagem de carro, curtir o lugar e se desligar de todos os problemas.
Faço questão de falar pra todos que me conhecem e digo que se você quer saber mais de mim, pode falar com ela.
Eu sou muito grata a ela, e mesmo não sendo boa em conselhos, faço tudo que posso pra contribuir pra uma vida mais feliz e leve.
Levo com a gente nossa tradição de pintar unhas (e cabelo de azul quando dá) e tô sempre aqui comprando vários presentinhos ao longo do ano pra entregar no dia 16/02. Assim como ela também.
Esse amor de irmãos e de nunca mais me sentir desamparada ou sozinha é tudo que eu esperei minha vida toda e finalmente meu momento chegou.
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