domingo, 28 de maio de 2017

Temível

O medo era tão grande que a consumiu por inteira.

Nyna

17/03/2004 - 28/05/2017

Meus joelhos fraquejaram pela primeira vez na minha vida.
Um pedaço de mim, essencial para meu bem-estar, havia me deixado.
Lembro-me claramente daquele último suspiro enquanto eu te olhava de longe. Tentando sair daquela sala para fazer algo que meu coração gritava para não fazer.
Ny, você foi boa pra mim desde o primeiro dia, quando eu tirei a sorte grande em te ter nos meus braços.
Aquela coisinha fofa que sempre encantou a todos que passavam.
"Quantos meses?" era o que mais ouvíamos.
"Guarda a língua" era o que eu mais te dizia quando saíamos.
"Pãozinho" era sempre que queríamos que você nos desse atenção pra ganhar comida.
"Xixi" era a palavra mais dita na nossa rotina.
Morder cutículas era a sua especialidade. E eu levarei cicatrizes na mão como forma de lembrança do meu amorzinho bravo e feroz.
Todo sacrifício vale a pena por você. Sempre valeu.

Lembra da nossa ida pra Aparecida com seus latidos no meio da missa? Dos nossos passeios?
Quando você aprontava, suas reações denunciavam. Quando estava brava com a gente, bastava uma virada de cara esnobe. Mas nada durava muito tempo. Bons tempos que vou guardar pro resto da vida.
Nossa conexão sempre foi incrível. Se uma não estava bem, a outra também não ficava.
E meudeus, como você foi forte, corajosa e lutou para estarmos sempre juntas...
Sou muito grata por você ter me escolhido.

Eu te amo, Ny.

terça-feira, 16 de maio de 2017

O garoto

Por mais que vivesse rodeado de amigos, de parentes e de uma rotina consumidora, ele continuava se sentindo sozinho. A introversão tinha culpa nisso, claro, mas ela não era a única causa. A verdade só era clara em seus pensamentos e na madrugada solitária. Era lá que ele se sentia confortável para pensar em todas as decisões do dia, era lá que ele tinha a confiança para relaxar e fazer o que bem entendesse.
Nessa altura da vida, sentia falta de algo para se orgulhar. De algo para encher o peito e dizer: "esse sim, esse eu levo pra vida". Talvez alguém o completaria, bastava ele procurar e abrir o coração. Mas por vezes tinha medo de se abrir, de dizer o que pensava, de receber críticas e qualquer coisa que o desmotivasse.
A vida já o punira o suficiente, para que mais?
Seria o secundário da vida alheia, o apoio a quem precisava, a intimidade de quem precisasse, mas chegou o dia que ele precisava de alguém como ele, e isso o atormentava pelas madrugadas frias em companhia de um cobertor que não o aquecia.
Quando algo o chamava a atenção, sentia seu coração bater fora do corpo. Sentia o corpo todo vibrar e tremer. Não sabia lidar, talvez por medo, talvez por inexperiência. Então ele fugia.
Fugia para a vida que criara na sua cabeça, com o coração em ordem, a cabeça em paz e o espírito livre.

A devoradora

As lendas dizem que a bela moça um dia se tornou devoradora de devotos. Devotos da vida, do santo, do filho, do pai e de mulher.
Era chamada de prima da Medusa. Parecia inofensiva. Quem via de fora, jamais imaginaria que uma mocinha daquelas conseguiria digerir pedaços de homens devotos. Muitos achavam que a dominariam, encaravam aquilo como um desafio. Muitos tentaram. Poucos sobreviveram.
O poder de consumir algo a despertava interesse. Nunca dizia claramente o que estava pensando. Mas agia, manipulava e digeria os devotos.
O número de vítimas dependia do seu poder de sedução e persuasão. Contam que teve dias que eram três. Café da manhã, almoço e janta.

Como todo ser maligno, tinha medo de ser descoberta, então escolhia muito bem as vítimas. Cautelosamente agia. Jogava seu charme, abria-se para o escolhido da vez. Mostrava a sinceridade e fazia com que todos confiassem no ser verdadeiro que ela era.
Por muitas vezes, foi realmente verdadeira, já que depois eles deixariam de existir, seu segredo estaria seguro. Contar as coisas aliviava a moça, que apesar de ser uma devoradora, ela também tinha sentimentos ocultos.

Se perguntasse o seu maior medo, ela diria: "Medo de ser descoberta". Aí o seu fim estaria marcado. Mudaria de cidade, de país, de convívio. Até la, ela continua seguindo.
Podem falar o que for da moça, mas o que ninguém sabia era que, no fundo, o que a transformara nesse temível monstro foi a dor de uma desilusão.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Conto

Era uma vez uma menina, amada por todos. Exemplo de vida a ser seguido e colocado em um quadro na parede da casa da matriarca.
Era motivo de citações boas e de ódio das outras meninas do reino.
Um belo dia ela desprendeu-se do que era certo. Havia se cansado daquele patamar. Queria evoluir. Tinha medo das críticas, mas seguiu em frente.
Apaixonou-se por um príncipe encantado. Que lhe dedicava serenatas e declarações de amor. Decidiu, então, dar uma chance ao sentimento que sempre teve por ele desde o primeiro olhar naquele baile. Começaram um romance bonito, mas que mais tarde traria surpresas a todos.
Quando vivendo na maioridade de suas escolhas, tropeçou na vida. Feio. Não sabia mais como lidar.
Ao olhar pro lado, nas noites frias, via a solidão e o abandono do príncipe. Mandava cartas de amor que agora não estavam mais sendo correspondidas. Onde ela tinha errado para não merecer mais a companhia dele ao seu lado? Deixara de ser digna?

A saudade apertou o peito de uma forma que jamais ousaria sobreviver.
Sentia que era seu fim.
Desgostou-se da vida e dos amores. Nada mais fazia sentido. Nada mais se mostrava em seu destino. O que seria dela naquela vida olhando sempre para a lembrança que ele deixara nela?
Nunca soube responder.
Noites e noites sem resposta.
Dias que ousavam não passar. Sorrisos amarelos que a acompanhavam na solidão eterna.
Dizem por aí que a bela moça mudou. Que depois do fim do amor (se é que esse amor teve fim) foi viver em outro reino, com outra forma de lidar com sentimentos, amaldiçoada por aquela escolha que havia feito e todo dia cuidando de sua cicatriz.